Carrinho fez brasileiro que atuava na Europa virar garçom no hotel da seleção

Revelado no São Caetano, Luiz Miguel jogava na Alemanha quando sofreu entrada violenta

Pedro Carvalho - enviado ao Reino Unido | - Atualizada às

iG Esportes
O ex-jogador, do outro lado do balcão: "quando conto, pensam que sou mentiroso"

O placar marcava zero a zero. Luiz Miguel, meia-atacante do TSV Torgelower, clube da segunda divisão do norte da Alemanha , recebeu a bola no meio de campo e se preparou para partir em velocidade. Era maio de 2009, e a equipe do brasileiro, revelado nas categorias de base do São Caetano , enfrentava o Greiswald. “Aí veio o carrinho”, lembra, enquanto recolhe um copo da mesa para colocar na bandeja.

Deixe o seu recado e comente esta notícia com outros torcedores

Luiz Miguel, nome de cantor e sotaque de rapaz simples de São Bernardo (SP), não esquece o lance. “Ele travou minha perna, eu caí para um lado e ele para o outro, como um alicate. A ambulância entrou no campo, me levou e meia hora depois os médicos disseram que eu precisaria ser operado. Tinha quebrado os dois ossos da canela”, conta. Hoje, aos 24 anos, ele trabalha como garçom no Sopwell House, tradicionalíssimo hotel ao norte de Londres , no qual a seleção brasileira está hospedada para disputar os Jogos Olímpicos .

Leia mais:  Seleção brasileira de futebol visitará a Vila Olímpica

A vida de Luiz daria um filme, mas alguém iria dizer que o roteirista pirou. O jogador partiu para a Europa em 2006, após jogar um ano nas categorias de base do São Caetano . O papo do agente era que ele ficaria na Inglaterra, porém surgiram problemas com o visto. Luís foi tentar a sorte em divisões de acesso de Portugal e da Espanha, onde morava numa bela casa com piscina, mas recebia com atraso os pagamentos do clube.

Arquivo pessoal
Luiz Miguel, quando jogava na Alemanha: 2 mil euros por mês e chance de se destacar na Europa

Surgiu a chance de jogar na Alemanha . Quando ingressou no TSV Torgelower, o jovem ganhava 2 mil euros por mês, além de ter as despesas pagas pelo time. Estava feliz com a estrutura do clube e a chance de despontar para o futebol europeu. Então veio o carrinho, a cirurgia, o mês no hospital, os sete parafusos de platina na perna – além de um maior, que fazia papel do ligamento do tornozelo – e tudo somado foram nove meses de recuperação. Mas ele não abandonou o sonho.

Confira ainda:  Com time definido para a estreia, seleção brasileira treina no CT do Arsenal

Luiz já corria e treinava novamente quando, um dia, ao entrar no MSN (serviço de mensagens instantâneas na internet), recebeu um “olá” de uma moça desconhecida, uma advogada que morava no Vietnam. Na verdade, ela havia confundido o jogador com outro Luís Miguel, filho do técnico da seleção vietnamita de futebol. “Achei que a mulher estava tirando um sarro de mim e resolvi tirar um sarro dela também”, conta. “Comecei a fingir que era o cara”.

iG Esportes
Luís, ao lado das camisas expostas no corredor, de times que se hospedaram no hotel

Seria só um trote, não fosse a conversa virar um convite para jogar no país asiático. “Nessa hora, pedi para ela ligar a câmera do computador, para a gente falar cara a cara. Disse que tinha mentido, que era outro Luiz, mas que também jogava futebol e gostaria de fazer um teste”. Ela topou, ele foi. “Quando eu conto, pensam que sou mentiroso”, diverte-se, segurando uma bandeja em pé, ao lado da mesa de jantar – ele recusou o convite para se sentar, porque havia mais hóspedes no salão.

Leia ainda:  “Não viemos aqui a passeio”, diz Neymar na busca de ouro inédito

Ficou um tempo no Vietnam, quando surgiu a oportunidade de jogar no Egito. O irmão mais novo de Denílson , volante do Arsenal atualmente emprestado ao São Paulo , estava por lá e disse que conseguiria uma vaga. Mas durou pouco. Primeiro, porque o técnico resolveu tirá-lo de um amistoso aos cinco minutos de jogo. “Ele não me respeitava”, diz. O outro motivo é que, durante uma viagem que ele e o amigo fizeram para Londre s, num último capítulo improvável dessa trajetória, explodiu a primavera árabe na praça Tahir.

Veja também:  Espanha bate México em duelo de preparação para os Jogos de Londres

Já era começo de 2011, quando Luiz decidiu que não podia continuar assim, sem rumo. “Queria tentar mais uma vez, porque futebol é que nem andar de bicicleta, você não esquece. Fui fazer um teste no Reus, da Espanha. Mas tinha resolvido que, se não desse certo, seria o último”, diz.

Não deu certo. Luiz Miguel voltou para a Inglaterra e virou garçom. Primeiro, de um restaurante francês, depois, de um libanês e, nos últimos dois meses, do hotel. Mas parece ser outra passagem temporária. “Não quero ficar como garçom, quero fazer algo significativo. Estou tentando entrar na faculdade aqui, para estudar international business [ negócios internacionais ]. Se não der certo, volto para estudar no Brasil”, diz.

E mais:  Thiago Silva quer sair de Londres com o ouro que escapou em Pequim

E o futebol, nunca mais? Luiz diz que não. Após tantas promessas frustradas, ele parece desiludido. “É o meio mais desonesto que existe”, desabafa. O relógio marca quase uma da madrugada. Luís termina de secar alguns copos e ainda topa tirar fotos em frente a camisas de futebol expostas no corredor, deixadas ali por times que se hospedaram no hotel. Mas precisa voltar para terminar o serviço, porque nesta quinta-feira ele pega às 8h30 e só larga à meia noite.

Já a seleção treina às 9h no campo do Arsenal e parte, à tarde, para Middlesbrough, onde joga um amistoso na sexta-feira contra a Grã-Bretanha. A estreia do time de Mano Menezes nas Olimpíadas está marcada para o dia 26, contra o Egito, em Cardiff (País de Gales).

Leia tudo sobre: londres 2012futebolbrasil

Notícias Relacionadas


    Mais destaques

    Destaques da home iG