Campanha histórica do boxe tem polêmica sobre responsáveis pelo sucesso

Atletas, dirigentes e especialistas adotam posições opostas para explicar bom desempenho do Brasil na modalidade em Londres

Rodrigo Farah - enviado iG a Londres |

O Brasil ainda não encerrou sua participação no boxe, mas já fez o suficiente para ter um desempenho de gala nas Olimpíadas de Londres. Os bronzes de Adriana Araújo e Yamaguchi Falcão aliados à vaga na final de Esquiva fizeram o país dar um salto sem precedentes na modalidade, superando outras bem mais tradicionais como a natação e o atletismo.

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Mas como justificar a evolução repentina de um esporte que não medalhava há 44 anos? Os três pódios seriam apenas uma coincidência ou frutos de investimentos diretamente aplicados? A questão gera muitas controvérsias dentro do próprio boxe. Atletas da seleção, dirigentes e técnicos divergem sobre os motivos do surpreendente rendimento olímpico dos pugilistas.

Veja as imagens das lutas dos irmãos Falcão nas semifinais do boxe:

Yamaguchi leva soco do lutador russo. Foto: APYamaguchi e Egor Mekhontcev trocam socos. Foto: APEgor Mekhontcev venceu os três rounds contra Yamaguchi. Foto: APEsquiva Falcão jogou britânico no chão e fez o árbitro a abrir contagem no terceiro round. Foto: Getty ImagesO rival britânico de Esquiva Falcão caiu no ringue mais de uma vez e quase perdeu por nocaute. Foto: AFPAnthony Ogogo não aguentou as pancadas de Esquiva e foi à lona no terceiro round. Foto: APBrasileiro acerta soco no lutador britânico. Foto: ReutersEsquiva Falcão acertou vários golpes na cabeça do britânico. Foto: ReutersComo já tinha feito em Londres, Esquiva homenageou o pai Touro Moreno após a vitória histórica. Foto: Getty ImagesEsquiva Falcão tem o braço erguido depois de derrotar o britânico nesta sexta-feira. Foto: Getty Images

Em entrevista ao iG, o presidente da Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe), Mauro Silva, foi enfático ao citar o principal motivo que levou o país à excelente campanha nos Jogos, em sua opinião: o investimento direto em cada lutador.

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“Dirigimos todos os esforços para o atleta. Eles possuem uma equipe multidisciplinar e um centro de treinamento moderníssimo, com os melhores equipamentos, em São Paulo. Também realizamos intercâmbios com um total de 17 viagens para a Europa no ciclo. Eles chegaram a Londres já conhecendo todos que enfrentariam”, explicou Mauro.

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Com apoio de verbas da Lei Piva e, principalmente, do patrocínio da Petrobrás (com aplicação gerida por Magic Paula), a Confederação teve pouco mais de R$ 6 milhões para investir somente no último ano na preparação dos atletas – seja na compra de materiais esportivos, viagens, salários, etc.

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À primeira vista, o valor impressiona. Mas apenas uma pequena quantia é repassada diretamente para o bolso dos lutadores. Segundo apurou a reportagem do iG, o salário mensal dos medalhistas gira em torno dos R$ 5 mil já com benefícios inclusos, como vale-refeição. Um pugilista olímpico da Rússia, por exemplo, recebe quatro vezes mais em seu país.

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“Consegui comprar meu carrinho com esse dinheiro, mas ainda não consegui comprar minha casa. Tomara que isso mude com a medalha, pois tenho certeza que agora terei mais condições de ajudar minha família no Brasil”, comentou Yamaguchi Falcão após a derrota na semifinal da categoria até 81 kg e a confirmação do bronze.

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“Hoje em dia não precisamos nos preocupar com problemas fora do boxe. Temos plano de saúde, odontológico, nutricionista... E a preparação também foi bem melhor, pois viemos para Europa toda hora. Aqui na América Latina só tem os cubanos em alto nível, já na Europa não. Por aqui, tem atletas bem melhores”, ressaltou seu irmão Esquiva.

Reuters
Adriana Araújo conquistou o bronze e comemorou desabafando contra dirigente do boxe

Enquanto os membros da família Falcão fazem questão de creditar os resultados à preparação feita com o apoio da CBBoxe, a pugilista Adriana Araújo adota uma postura bem diferente, com direito a ataques verbais e muito descontentamento em relação aos dirigentes.

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Passada a conquista do bronze – que rompeu um jejum de 44 anos do país sem medalhas nas Olimpíadas -, a baiana criticou abertamente o trabalho da Confederação, principalmente pelo fato de ser obrigada a realizar sua preparação no CT de São Paulo e não com seu técnico Luiz Dórea, em Salvador.

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“Lá teria a mesma estrutura de qualquer outro lugar. Eles não deveriam me obrigar a ficar longe do meu técnico por dois anos. Isso é um absurdo, uma ditadura. Se eu cheguei aqui por causa de Luiz Dórea, foi ele quem me preparou. E não por causa do presidente, que só me humilhou e disse que eu sequer me classificaria”, desabafou a lutadora.

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Até então único medalhista do boxe brasileiro, Servílio de Oliveira concorda com a pugilista. Bronze nos Jogos da Cidade do México em 1968, ele também acredita que o apoio dado aos atletas ainda é pequeno e faz questão de separar os resultados em Londres dos investimentos repassados pela confederação.

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“A conquista foi fruto do treinamento deles e dos seus técnicos, não dos dirigentes. Temos que ter cuidado sobre quem vamos exaltar agora, pois eles (CBBoxe) foram omissos e não respeitaram os lutadores”, ponderou o veterano de 64 anos.

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